Faça humor, não faça a guerra!

E quem disse que mulher não é engraçada?????

O humor faz bem a quem ri (todo mundo) e a quem faz rir – essa, uma província masculina por tradição, que agora as mulheres começam a invadir em massa

 Matéria da Revista Veja Especial Mulher
 
Fotos Ernani D’Almeida
Ingrid Guimarães, encorajada pela família a seguir sua veia cômica: além de um evento, ela é uma exceção
Em um artigo publicado no ano passado na revista Vanity Fair, o colunista Christopher Hitchens, um dos mais atilados e irreverentes em atividade, lamentou que as duas coisas que os homens mais amam – mulheres e piadas – nunca ocupem o mesmo espaço. As mulheres, como bem se sabe, em geral adoram homens com senso de humor. (Desde que elas próprias, ou qualquer coisa que se refira a elas, não sejam o objeto nem, muito menos, o alvo da piada. Nem de longe.) "Ele me faz rir" é uma das frases que aparecem no topo de qualquer lista de qualidades que as mulheres fazem sobre o parceiro, pelo menos quando ainda estão enamoradas dele. O inverso, claro, é uma anomalia. Pergunte-se a um homem o que ele procura em uma mulher e provavelmente ele nem sequer se lembrará de incluir entre suas respostas alguma referência à suposta comicidade da parceira ideal. Segundo Hitchens, a razão é óbvia: em uma mulher, o senso de humor é um bônus; o incauto que o transformar em critério de eliminação, por outro lado, pode muito bem ter de enfrentar toda uma vida de celibato. Sob o provocativo título Por que as Mulheres Não São Engraçadas, o escritor enumerou as possíveis razões para essa pequena tragédia evolutiva. A primeira delas, diz ele, é que os homens nutrem uma admiração e um temor colossais pela capacidade das mulheres de gerar filhos – a qual confere a elas uma autoridade inabalável, sob cujo peso eles só podem sobreviver à custa de piada. (Não à toa, argumentava Hitchens, a ironia já foi conhecida como "a glória dos escravos" – é o que lhes resta.) O humor também é uma arma de conquista eficiente, pelos efeitos fisiológicos que provoca: faça uma mulher dar uma gargalhada verdadeira, daquelas em que se joga a cabeça para trás e os músculos relaxam, e bom, a situação de vantagem em que isso coloca o pretendente é auto-explicativa. Elas mesmas, porém, não têm muito o que considerar tema de riso para consumo alheio, já que ser a responsável pela preservação da prole não é brincadeira e deixa espaço exíguo para a frivolidade. (Outra hipótese, para a qual o colunista não conseguiu obter confirmação científica, é que a placenta de uma grávida seja composta daquelas células do córtex cerebral que respondem pelo humor – e o destino dessas células, naturalmente, é rumo ao sul.)
 
Fotos Lailson Santos
Grace Gianoukas, o motor que move o grupo Terça Insana: eles caem na escatologia, elas são mais sutis
O artigo de Christopher Hitchens é perspicaz e extremamente engraçado – como homem, e homem inteligente, ele tem o dom da piada. O que ele não explica é a recente multiplicação das mulheres entre a vanguarda da comédia. Não apenas mulheres que sabem entregar uma piada escrita a um roteirista, à maneira de grandes comédiennes como Katharine Hepburn, mas mulheres que criam humor: concebem, escrevem, interpretam e dirigem outros participantes na empreitada. Na televisão americana, profissionais como Tina Fey (da série 30 Rock), Sarah Silverman (do programa que leva seu nome) e Amy Poehler (do Saturday Night Live) concorrem de igual para igual com os colegas em popularidade e em inventividade. Na maioria dos casos, ganham em apuro e sutileza, sem perder na eficácia. Veja-se, por exemplo, Rachel Dratch, também do Saturday Night Live. Durante várias edições do programa, ela conduziu um quadro que homem nenhum saberia escrever sozinho, e a cuja hilaridade nenhum homem também seria capaz de resistir – na volta de um jantar, já em sua casa, ela apresenta ao candidato a namorado seu bicho de estimação, que reage à presença do estranho com possessividade doentia. "O homem descamba facilmente para o escatológico; já as mulheres tendem a ser refinadas e têm um freio mais sensível para o preconceito e para a deselegância", opina Grace Gianoukas – que, como roteirista, diretora e atriz do grupo Terça Insana, um dos mais afiados do humor brasileiro, faz por merecer o direito a um veredicto. Grace, aliás, diz ser singularmente pouco engraçada fora do palco. "Sou muito chata. Se eu fosse bancária, certamente seria a louca do caixa."
A goiana Ingrid Guimarães é outro evento do humor nacional. E não só porque seu programa Mulheres Possíveis é um dos favoritos do canal GNT ou porque a peça Cócegas, da qual é autora e intérprete, já bateu nos 2 milhões de espectadores – marca que poucos filmes, brasileiros ou não, conseguem atingir, que dirá um espetáculo teatral. Ingrid é singular também (ou principalmente) porque sua família: a) percebeu que ela era uma criança engraçada; b) gostou disso; e c) encorajou-a a seguir sua veia cômica – a qual, em compasso com o estilo feminino, se manifesta como humor tirado de situações. "Sou péssima contadora de piadas. Aliás, muitas vezes eu nem entendo a piada. É um horror", brinca (só pode ser brincadeira) a comediante. Uma das explicações mais razoáveis para a escassez histórica de mulheres engraçadas (não divertidas, esse, um contingente respeitável) é o olhar torto que os pais e as mães costumeiramente dirigiam às meninas zombeteiras. Rir e fazer rir é sinal evidente de inteligência, agudeza e irreverência. Nas filhas dos outros, essas qualidades podiam ser fonte de entretenimento; nas próprias, tradicionalmente eram motivo de angústia, por limitar com alguma drasticidade o número de bons partidos de que a filha em questão iria dispor. (O que os homens têm em comum com as mulheres nesse território é que também eles não gostam que seu objeto de desejo os trate como alvo de troça ou ridículo). Mais do que a paridade de cargos ou salários, assim, mulheres como Ingrid e Grace é que são o sinal de que os tempos realmente mudaram. Se existe uma geração de pais e mães que incentivam a graça de suas filhas engraçadas, e de espectadores que pagam para apreciá-las, então talvez esteja na hora de Christopher Hitchens escrever outro artigo. E de os homens começarem a incluir o senso de humor entre as virtudes da mulher ideal, sem medo de viver a vida em solidão.

Os diferentes estilos cômicos de homens e mulheres
 
ELES SÃO CONTADORES DE PIADAS...

Os homens são, por natureza, mais piadistas que as mulheres. Trata-se de uma tendência que se verifica desde a infância. Um estudo realizado com crianças da Bélgica, dos Estados Unidos e de Hong Kong mostrou que os garotos já se destacam nessa área aos 6 anos de idade
De acordo com uma pesquisa da lingüista americana Deborah Tannen, os homens tendem a fazer piada a respeito de outras pessoas, muito mais do que sobre si próprios. Eles também são mais propensos a contar piadas a grandes audiências
Ao analisar o comportamento de casais num primeiro encontro, pesquisadores alemães averiguaram que o riso dos homens nessas situações não era indicativo de desejo pela interlocutora. Mas eles se interessavam, por outro lado, por aquelas que riam mais de seus gracejos
O fato de as mulheres se sentirem atraídas por homens que as fazem rir tem uma explicação à luz da psicologia evolucionista: elas identificariam esse traço como sendo de um macho dominante. Mas há uma diferença e tanto entre o homem que faz rir e aquele que ri demais.
Elas não apreciam esse último, por achá-lo pouco viril

...E ELAS SÃO OUVINTES EXIGENTES 

Uma pesquisa com 1 280 homens e mulheres cariocas de classe média revelou que elas sentem mais atração por pretendentes que esbanjem senso de humor. Cerca de 15% das entrevistadas disseram que se trata de um atributo fundamental num parceiro
Nas conversas entre homens e mulheres, elas riem 126% mais que eles, de acordo com um estudo americano em que se avaliaram 1 200 situações de riso. Detalhe: elas riem mais quando a piada é contada por um homem
O humor feminino costuma ser auto-referente: ao contrário dos homens, elas fazem mais piadas sobre si próprias que a respeito dos outros. As mulheres também preferem exercitar seus dotes cômicos em conversas a dois, e não em grandes rodas
O riso feminino é um bom termômetro dos relacionamentos. Enquanto o homem é capaz de fazê-las rir, está tudo bem. Quando isso já não ocorre, pode ser sinal de que algo vai mal na relação. Num estudo com casais jovens, constatou-se que, quanto mais as mulheres riram no primeiro encontro, maior era seu desejo declarado de voltar a se encontrar com o homem

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